sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Crítica de Ricardo Zanella e foto de Carlos Sillero


FRIDA KAHLO - VÁRIAS CORES EM UMA VIDA

CRÍTICA DE RICARDO ZANELLA

PORTO IMAGEM

"Eu nunca pintei os meus sonhos. Eu pintei a minha própria realidade!"

Frida Kahlo é algo incompreensível até os dias de hoje?

Uma mulher a frente do seu tempo e com suas limitações não se deixou abater, conseguindo modificar seu mundo e vivê-lo de maneira plena. Mesmo alguns podendo achar que ela deixou a vida desistindo desse mundo, já que em seu diário a última frase é "Espero alegremente a saída - e espero nunca mais voltar - Frida".

E por isso, levá-la ao teatro, transformá-la em personagem é algo que nos deixa apreensivo, com um certo incomodo, afinal, o feminino está ali sendo exposto. Como várias outras mulheres que não deixaram serem consumidas pelo discurso do patriarcado, mas que fez desse uma forma de revolução própria.

Vendo “Frida Kahlo, A revolução”(Teatro de Camara Túlio Piva) a pessoa/personagem em sua transformação na busca do questionamentos somos levados a sair de nos e reencontrar nossa própria essência. O texto cheio de metáforas, de interrogações, de sofrimentos e alegrias está para ser preenchido com aquilo que temos no nosso inconsciente de Frida. Mas sua essência está ali, brutalmente nos chamando para
questionarmos o mundo e questionarmos a nós mesmos.

Toda a força, a preocupação e a ironia, nos são mostradas de maneira cuidadosa e sensível nesse texto de Juçara Gaspar amarrado brilhantemente pelo diretor Daniel Colin, tecendo um itinerário pelo mundo estonteante e visceral de Frida e nos embriagando com sua revolta existencial.

Embora nos primeiros minutos da encenação pareça que não seremos convencidos do que estamos vendo, somos levados com a perfeita encenação de Juçara Gaspar que sente a Frida aos poucos chegando e nos conduzindo a sentir a dramaticidade da vida e obra dessa personagem que agora é Frida.

É imperdível o discurso antiamericano, na qual a atriz chega ao ápice da perfeição, sendo, sentindo, nos remetendo a catarse belíssima daquele discurso instalado na garganta de nós latinoamericanos, processando todo o sentimento necessário para vermos Frida naquele momento, ou o que imaginamos que Frida seria. Encerrando com a
magnífica dança na qual vemos a felicidade re instaurada, como uma criança que redescobre seu brinquedo perdido.

O espetáculo é muito bem cuidado, a iluminação de Felipe de Galisteo consegue marcações fundamentais para contar a vida de Frida com sombras ganhando proporções incríveis, fazendo sentirmos naquele espaço, remetendo-nos aos lugares q devemos estar junto a ela. O Cenário de Lara Coletti é preenchido em todas as cenas pela interação que Juçara está no palco com os acessórios, se transformando nos anos
passados pelos gestos, e supressão dos gestos elaborados por Daniele Zil.

Se uma peça me leva a questionar, ela me leva no lugar que quero estar. E se me tira dali daquela cadeira e me coloca como a pessoa que presencia a história está onde eu quero. Conseguir sair desse lugar e ver apenas pelo simples prazer de ver. A trilha sonora que executada no palco por Luciano Alves nos dá proporção exata de que aquilo está ali vivo, palpitante e fazendo com que presenciamos tudo de novo. E nesses momentos podemos ser qualquer um deles Frida, Diego, papi, sendo o sofrimento dos filhos que não teve, latino americanos, socialista, anarquistas, ou sendo o mundo capitalista que nos consome na próxima esquina.

O Projeto Novas caras deve e merece ser conhecido, apresentado e aperfeiçoado, pois assim teremos cultura, diversão e ética para podermos fazer do mundo algo magnífico e real, para estarmos na frente de um tempo maior. E somos levados pela peça a acreditar nessa idéia da intemporalidade e estarmos ali vivenciando o melhor da construção da história humana.

Tomara que possamos ver em outros momentos esse espetáculo na cidade ou saber que como a obra e vida de Frida corre o mundo.

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FRIDA KAHLO, À REVOLUÇÃO!

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